terça-feira, 18 de outubro de 2011

PÚLPITOS



É minha intenção
Mostrar nada a alguém.
Apenas eu quero...
Viver... ser alguém.
Ascender aos púlpitos...
E dizer a múltiplos...
O quanto desejo...
Viver... ser alguém...

Ser gente de bem...
Dividir co’ alguém...
O tudo de bom...
Que a ninguém pertence...
Que todo vivente...
Ah, se tem... se tem!
Que todo vivente...
Ah, se tem... se tem!

É gente que vai,
São coisas que vêm.
É gente que fica,
Pra si não detém
O que recebeu,
Na vida, de alguém;
O que recebeu,
De sua, também!

Adiante horizontes
Tão lindos se veem!
Pra tantos, pra tantos,
Pra muitos não têm:
Horizontes reles
A tudo retêm,
Só osso; só pele...
É só o que se têm!

– Pra dar a seus filhos...
Comida? – Não têm!
– Pra dar a seus filhos...
Um traje? – Não têm!
– Pra dar a seus filhos...
Um teto? – Não têm!...
Dividam conosco
O tanto que têm!!!

Sou um rico mendigo!
Meus filhos também!
Eu não tenho abrigo!
Meus filhos também!
Eu sou um esquecido!
Meus filhos também!
Só temos angústia...
– Que mais? – Nada além!

Eu não tive escola!
Meus filhos não têm!
Olhar-pouco-caso
Pra nós é o que tem!
Talvez uma esmola...
É o que gente tem!
E “vá logo embora!”...
Nos fazem reféns!

Viver eu não vivo!
Meus filhos também!
Quiçá, sobrevivo!
Meus filhos também!
Um passo adiante
Meus olhos não veem!...
Não pode ser vida
A que a gente tem!

Detém-me o aquém.
– Será que há o além?
– Não sei nada disso!
Do seu desperdício,
Vou buscar no lixo
O que de comer!
Conseguir, com isso,
O que de comer!

De novo, explorado
(Sei muito bem disso!)
Pior há ficado
Se ficar no lixo,
Que só por capricho
Se tem lá jogado:
É tremendo vício
Na vida impregnado!

– Se a felicidade
Se encontra no além,
Pra que que se vive?
(Nos digam também.)
Não tenho horizonte!
Meus filhos não têm!
Sou um ser rastejante!
Que pena, não o veem!

Nos pisam, esmigalham...
Que dor que se tem!
Nos dão só migalhas...
É o que a gente tem!
E a fome se espalha,
Faz novos reféns!
O quanto atrapalha
O culto ao desdém!!!

Bem perto de nós
É o que se queria!
Bem ao nosso lado,
De mãos estendidas,
Num mundo feliz,
Num mundo fraterno!...
Mas tudo se estraga:
Impera o desdém!!!

Verdadeira praga
O olhar que não vê,
O olhar desdenhado,
Ou que não quer ver!
O olhar ufanado
Do rico que vê
O necessitado,
E o deixa morrer!

Verdadeira praga,
É peso que esmaga,
E a tudo destroi!
É fétida chaga,
Que, aberta, corroi!
Não haverá paga
Pro valor da vida,
Que o amor reconstroi!

Rasteja buscando
Migalha de pão!
É osso, é pele,
Mas, carne, é não!
Buscando comida,
Rasteja no chão...
Minguando, sem forças,
Migalhas na mão!

De coisa tão grave,
Por perto, umas aves,
Que aguardam comida
Que esteja inda quente!...
Traz olhos abertos,
O expecto de gente...
De gente, só espectro,
Que ainda está quente!...

Vão longe e distantes
Os meus semelhantes:
Aqui o miserável,
Bem lá os que têm,
– O mundo só existe
Pra quem se dá bem?...
Restou-nos só ver...
Quem vai, mas não vem?

Não haverá paga
Pra vida de irmãos:
Eu lhe dou a minha,
Me dê sua mão!
Deixemos de lado
A violência e o medo:
Não é inda tarde!
Porém não é cedo!

Jacarezinho, PR, 08-5-2008; revista: 14-10-11.
Autoria: Sérgio Eduardo Possetti

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